Tuesday, November 08, 2011

chile

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/17606/chile+vive+onda+de+perseguicao+a+jornalistas+com+prisoes+espancamentos+e+atentados+a+bomba.shtml

Thursday, September 29, 2011

brasil, eua

1.

O complexo de vira-lata
Celso Amorim
25 de julho de 2011 às 18:20h

Até os jornais brasileiros tiveram de noticiar. Uma força-tarefa criada pelo Conselho de Relações Exteriores, organização estreitamente ligada ao establishment político/intelectual/empresarial dos Estados Unidos, acaba de publicar um relatório exclusivamente dedicado ao Brasil, -pontuado de elogios e manifestações de respeito e consideração. Fizeram parte da força-tarefa um ex-ministro da Energia, um ex-subsecretário de Estado e personalidades destacadas do mundo acadêmico e empresarial, além de integrantes de think tanks, homens e mulheres de alto conceito, muitos dos quais estiveram em governos norte-americanos, tanto democratas quanto republicanos. O texto do relatório abarca cerca de 80 páginas, se descontarmos as notas biográficas dos integrantes da comissão, o índice, agradecimentos etc. Nelas são analisados vários aspectos da economia, da evolução sociopolítica e do relacionamento externo do Brasil, com natural ênfase nas relações com os EUA. Vou ater-me aqui apenas àqueles aspectos que dizem respeito fundamentalmente ao nosso relacionamento internacional.

Logo na introdução, ao justificar a escolha do Brasil como foco do considerável esforço de pesquisa e reflexão colocado no empreendimento, os autores assinalam: “O Brasil é e será uma força integral na evolução de um mundo multipolar”. E segue, no resumo das conclusões, que vêm detalhadas nos capítulos subsequentes: “A Força Tarefa (em maiúscula no original) recomenda que os responsáveis pelas políticas (policy makers) dos Estados Unidos reconheçam a posição do Brasil como um ator global”. Em virtude da ascensão do Brasil, os autores consideram que é preciso que os EUA alterem sua visão da região como um todo e busquem uma relação conosco que seja “mais ampla e mais madura”. Em recomendação dirigida aos dois países, pregam que a cooperação e “as inevitáveis discordâncias sejam tratadas com respeito e tolerância”. Chegam mesmo a dizer, para provável espanto dos nossos “especialistas” – aqueles que são geralmente convocados pela grande mídia para “explicar” os fracassos da política externa brasileira dos últimos anos – que os EUA deverão ajustar-se (sic) a um Brasil mais afirmativo e independente.

Todos esses raciocínios e constatações desembocam em duas recomendações práticas. Por um lado, o relatório sugere que tanto no Departamento de Estado quanto no poderoso Conselho de Segurança Nacional se proceda a reformas institucionais que deem mais foco ao Brasil, distinguindo-o do contexto regional. Por outro (que surpresa para os céticos de plantão!), a força-tarefa “recomenda que a administração Obama endosse plenamente o Brasil como um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É curioso notar que mesmo aqueles que expressaram uma opinião discordante e defenderam o apoio morno que Obama estendeu ao Brasil durante sua recente visita sentiram necessidade de justificar essa posição de uma forma peculiar. Talvez de modo não totalmente sincero, mas de qualquer forma significativo (a hipocrisia, segundo a lição de La Rochefoucault, é a homenagem que o vício paga à virtude), alegam que seria necessária uma preparação prévia ao anúncio de apoio tanto junto a países da região quanto junto ao Congresso. Esse argumento foi, aliás, demolido por David Rothkopf na versão eletrônica da revista Foreign Policy um dia depois da divulgação do relatório. E o empenho em não parecerem meros espíritos de porco leva essas vozes discordantes a afirmar que “a ausência de uma preparação prévia adequada pode prejudicar o êxito do apoio norte-americano ao pleito do Brasil de um posto permanente (no Conselho de Segurança)”.

Seguem-se, ao longo do texto, comentários detalhados sobre a atuação do Brasil em foros multilaterais, da OMC à Conferência do Clima, passando pela criação da Unasul, com referências bem embasadas sobre o Ibas, o BRICS, iniciativas em relação à África e aos países árabes. Mesmo em relação ao Oriente Médio, questão em que a força dos lobbies se faz sentir mesmo no mais independente dos think tanks, as reservas quanto à atuação do Brasil são apresentadas do ponto de vista de um suposto interesse em evitar diluir nossas credenciais para negociar outros itens da agenda internacional. Também nesse caso houve uma “opinião discordante”, que defendeu maior proatividade do Brasil na conturbada região.

Em resumo, mesmo assinalando algumas diferenças que o relatório recomenda sejam tratadas com respeito e tolerância, que abismo entre a visão dos insuspeitos membros da comissão do conselho norte-americanos- e aquela defendida por parte da nossa elite, que insiste em ver o Brasil como um país pequeno (ou, no máximo, para usar o conceito empregado por alguns especialistas, “médio”), que não deve se atrever a contrariar a superpotência remanescente ou se meter em assuntos que não são de sua alçada ou estão além da sua capacidade. Como se a Paz mundial não fosse do nosso interesse ou nada pudéssemos fazer para ajudar a mantê-la ou obtê-la.


2.

26/09/2011 - 03h30

Brasil tem que resolver o que quer dos EUA, diz ex-embaixador



CLAUDIA ANTUNES
DO RIO

Brasil e EUA precisam decidir qual é o lugar do outro em sua estratégia nacional, afirma o embaixador aposentado Rubens Barbosa, que está lançando nesta terça, 27, o livro "O Dissenso de Washington - Notas de um Observador Privilegiado sobre as Relações Brasil-Estados", baseado nos cinco anos, de 1999 a 2004, em que chefiou a embaixada brasileira na capital americana.

De um lado, afirma ele, os EUA têm que mudar sua percepção sobre o Brasil. "O Brasil é visto como um país influente, moderador aqui na região, e só. Nos últimos anos cresceu, está agindo fora da região, e vai continuar nessa marcha de ocupar espaços globais. Como os EUA vão lidar com isso?"

Do outro, diz, o Brasil tem que resolver o que quer da relação com os EUA. "O que a gente quer? É cooperação? Não estou pensando só na área comercial, que depende muito da iniciativa privada. Mas há possibilidade de cooperação na área de inovação, tecnologia da informação, na qual os EUA são o país mais desenvolvido do mundo."

Abaixo, os principais trechos da entrevista de Barbosa, que passou 42 anos no Itamaraty e hoje é consultar de negócios, assessor da Fiesp (federação das indústrias de São Paulo) e editor da revista "Interesse Nacional".

Folha - Como surgiu a ideia do livro?
Rubens Barbosa - Eu sempre me preocupei com a preservação da memória. Desde que passei a ter posições de chefia no Itamaraty, no Departamento da Europa Oriental, guardei tudo. Doei o arquivo para o Cpdoc (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da FGV), com cerca de 70 mil páginas. O livro foi feito a partir de parte desses documentos, cópias de comunicações, registros pessoais, o programa de trabalho que fiz quando cheguei à embaixada e depois o relatório de gestão.

Além dos episódios da relação bilateral, o livro gira em torno de cinco fatos: a eleição do George W. Bush, que mudou a sociedade americana; o 11 de Setembro; a guerra do Afeganistão; a guerra do Iraque e a eleição de Lula no Brasil. É muito raro para um embaixador vivenciar tanta coisa importante.

O livro não pretende ser um trabalho acadêmico --não tem notas de pé de página-- nem uma análise crítica da política externa brasileira. É um relato das coisas que eu vivi lá durante cinco anos e que têm a ver com a relação Brasil-EUA.

O sr. parece acreditar que a relação entre Brasil e EUA é um rol de oportunidades perdidas. Por quê?
A relação não é tranquila, é muito conturbada ao longo de 200 anos. Há uma desconfiança mútua. A gente desconfia dos americanos porque são imperialistas, e eles desconfiam da gente porque, dos grandes países, somos o mais imprevisível. A Rússia eles sabem o que é, a China e a Índia também. O Brasil não. E eles se guiam por estereótipos, visões preconcebidas, e se surpreendem com algumas reações brasileiras, que não esperam.

Há um desconhecimento mútuo?
Na área empresarial, comercial, tem muita gente que não sabe como funciona nos EUA. Como trabalha o USTR (escritório de representação comercial da Casa Branca)? Como ele impacta os interesses brasileiros?

Do ponto de vista americano, isso é mais grave. Agora estamos começando a investir nos EUA, mas eles têm grandes interesses aqui. Perderam uma oportunidade com o crescimento do Brasil, e nós perdemos, acho eu, nos últimos oito anos, também uma oportunidade grande. Pela primeira vez na história, menos de 10% de nossas exportações vão para os EUA, que são o maior mercado do mundo. Quando cheguei lá eram 25%.

Não perdemos esse espaço comercial por causa da crise, mas antes. Perdemos porque a prioridade da política externa era a relação Sul-Sul, e os países desenvolvidos ficaram em segundo plano. Acho que a visita do Obama ao Brasil marca uma mudança, assim como a visita da Dilma a Nova York. Há áreas que não estão sendo tocadas que são muito importantes, como o acordo de bitributação, o acordo de garantia de investimentos. Antes isso favorecia empresas estrangeiras no Brasil. Agora favorece empresas brasileiras também.

Há três aspectos importantes a resolver: como conectar os interesses econômicos e comerciais do Brasil com os dos EUA; como os EUA vão lidar com o fato de o Brasil começar a ocupar espaços globais, quando antes eram vistos como um país influente e moderador apenas na região; e o Brasil tem que resolver o que quer da relação com os EUA. É cooperação?

Não estou pensando só na área comercial, que depende muito da iniciativa privada. Mas há muita possibilidade de cooperação na área de inovação, tecnologia da informação, na qual os EUA são o país mais desenvolvido do mundo. Por iniciativa deles, firmamos no governo Lula um acordo de energia e outro de cooperação em etanol, uma série de coisas que a gente não levou adiante. Então precisamos resolver o que a gente quer. Sem abdicar de soberania, sem nada. Estou falando de países que têm respeito mútuo e que defendem seus interesses.

Por que o sr. diz que os EUA são a relação mais importante para o Brasil?
Os EUA são maior mercado do mundo, estão muito adiante em termos de inovação, de patentes registradas, de descobertas. Não me refiro à parte política, mas ao contexto da relação, que é muito diversificado. Na área militar, sabemos que os americanos não cedem tecnologia e que não podemos ter nenhum tipo de transferência como temos com a Alemanha, com a França. Mas você vai nas áreas em que pode ter cooperação: meio ambiente, mudança de clima, agricultura, energia. São áreas em que o Brasil tem o que dizer, não vai lá pedir coisas, vai discutir de igual para igual.

É nesse sentido que a relação é importante porque oferece uma oportunidade enorme para darmos saltos qualitativos. O Brasil está num estágio de desenvolvimento em que a introdução de novas tecnologias propicia esse salto, e nos EUA existem áreas que não são sensíveis politicamente com as quais o Brasil poderia, através de instituições públicas ou privadas de pesquisa e desenvolvimento, ter uma aproximação maior.

Outro ponto do livro é que o sr. insiste na diferenciação do Brasil em relação aos demais latino-americanos. Por quê?
Fizemos na embaixada um trabalho para chamar a atenção deles de que o Brasil aqui na região é um país diferente. Depois que fizeram o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) com o México, eles queriam fazer a mesma coisa com o Brasil e não foi possível, não é possível.

O Brasil é um país que, quando foi importante, como na Segunda Guerra Mundial, esteve do lado dos EUA. O que os EUA não entendem, ou não entendiam, é que o Brasil defenda seus próprios interesses. Aqui na região os países de uma maneira ou de outra se acomodam à posição americana. O Brasil não. E isso é sempre, não é só com Lula ou Fernando Henrique.

O exemplo mais dramático disso é no caso do barão do Rio Branco [chanceler de 1902 a 1912, responsável pela demarcação definitiva das fronteiras brasileiras]. O barão do Rio Branco anteviu o crescimento americano e mudou o eixo da política externa da Europa para os EUA. Mas, quando resolveu o problema do Acre, afetou diretamente os interesses dos EUA, cujo Bolivian Syndicate havia arrendado o território à Bolívia.

A única maneira de os americanos chegarem ao enclave era pelo rio Amazonas. O barão fechou o rio para a navegação internacional. Então o Brasil defende seus interesses, é menos flexível, e isso cria fricções.

O sr. detalha no livro as negociações da Alca, e diz que a proposta morreu bem antes do governo Lula. Quando foi?
Na época havia a percepção de que foi no governo Lula que o Brasil encrespou com a Alca, mas começou com Fernando Henrique. Quando eles disseram claramente que não queriam discutir dois assuntos que eram de fundamental interesse para o Brasil, regras antidumping e subsídios, que esses assuntos não iam ser tratados na Alca, só na Rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio), eu passei a achar que não era viável.

Qualquer um que não tivesse motivação ideológica a favor dos EUA ou a favor da Alca a qualquer preço, que tivesse uma posição objetiva na defesa do interesse brasileiro, viu que era impossível sair o acordo.

Quais são as principais revelações do livro?
Ele traz duas ou três coisas que ninguém sabe. Na primeira reunião com Fernando Henrique Cardoso, em março de 2001, Bush propôs que o Brasil entrasse para o G8. Fernando Henrique ficou surpreso, foi uma coisa insólita. Estávamos sempre falando de Conselho de Segurança e ele vem dizer que a gente tinha que entrar para o G8.

No mesmo encontro, Bush quase aceitou a nossa proposta para um acordo comercial 4+1, entre os EUA e os países do Mercosul. Isso abria um caminho paralelo ao projeto original da Alca. Se não fosse a Condoleezza Rice, na época assessora de Segurança Nacional, Bush ia concordar. Ela segurou, disse que seria preciso ouvir antes o chefe do escritório comercial da Casa Branca.

O livro também detalha minha proposta de diferenciação, de colocar o Brasil num novo patamar entre os parceiros dos EUA. O Thomas Shannon, atual embaixador no Brasil, e o Richard Hass, na época diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado, tiveram a sensibilidade de perceber que o Brasil era diferente do resto da América Latina.

Eu tinha feito para que ocorresse no final do governo Fernando Henrique, mas os americanos guardaram e deram para o Lula. Dos grupos de trabalho criados em junho de 2003 [quando foi firmada a parceria estratégica], poucos avançaram. Mas hoje você tem uma estrutura. Se a gente for fazer uma ação importante do ponto de vista tecnológico ou de cooperação em energia, não precisa criar nada. Os mecanismos estão esperando que haja vontade política dos dois lados para serem levados adiante.

O sr. é crítico em relação à retórica do presidente Lula contra os EUA, incluindo na Guerra do Iraque. No entanto, diz que ela não provocou reação explícita americana. Por quê?
Eles não queriam ter mais nenhuma frente de conflito na região. Sempre tiveram uma atitude cautelosa porque viam o Brasil como um país moderador na região, e achavam que no fundo os valores e interesses deles aqui coincidiam com os nossos.

Apesar de sua identificação com o governo Fernando Henrique, o sr. teve inicialmente uma boa relação com o governo petista. Como foi isso?
Quando eu era embaixador em Londres, houve a eleição de 1998 e o Lula, o Marco Aurélio Garcia e o Jorge Mattoso [ex-presidente da Caixa Econômica] estiveram lá. Todo mundo sabia da minha ligação com Fernando Henrique, mas depois eu soube que eles comentaram ter ficado surpresos com a maneira isenta como os tratei.

Quando eu estava em Washington e houve a campanha de 2002, eu pedi instruções a Fernando Henrique e propus tratar igual todo mundo que fosse lá. Lula ia em fevereiro, mas cancelou e mandou em maio o José Dirceu, na época presidente do PT. Depois eu vim em novembro para o Brasil, tive contato com eles para preparar a visita de dezembro, o Lula ficou lá em casa duas vezes. Quando eu conversei com ele para sair de Washington, ele me convidou para ficar no governo.

Nestes anos todos em que eu critiquei muito a política externa, o Lula não passou recibo. Sempre que me vê ele me dá um abraço. A minha crítica foi política, não era uma crítica pessoal ao Celso Amorim ou ao Lula. Era uma visão diferente, estamos numa democracia, cada um tem o direito de defender sua posição.

No livro o sr. defende o acordo para o uso pelos EUA da base espacial de Alcântara, que não passou pelo Congresso. O acordo não é prejudicial ao Brasil?
Havia no acordo quatro ou cinco pontos inaceitáveis para o PT. Eu procurei o Departamento de Estado para negociar os pontos pendentes. Para surpresa de muita gente, consegui negociar quase todos eles. Depois saí e não levaram adiante.

A discussão continua, porque foi assinado com Obama o compromisso de negociar um acordo na mesma linha e não sei como vai ser a atitude do PT. A questão é que é preciso diferenciar o que é transferência de tecnologia do que é salvaguarda tecnológica. As pessoas na época não entendiam ou não quiseram entender a diferença.

Nosso objetivo era consolidar a base de Alcântara como um centro importante de lançamento de satélites comerciais, de comunicação. Para atingi-lo, precisava ter um acordo de salvaguarda tecnológica, porque do contrário nenhuma empresa americana --e os EUA detinham na época 85% do mercado de satélites-- iria lançar de lá. Ou você tinha o acordo ou não tinha a base. Não temos até agora. Fizemos um acordo com a Ucrânia que era exatamente igual ao americano.

Mas a principal objeção não era ao fato de o acordo proibir o uso do dinheiro do aluguel da base no projeto brasileiro do VLS (veículo lançador de satélites)?
O dinheiro é fungível, você bota no Tesouro. Pode concordar com isso, mas como vai controlar? O que os críticos argumentavam é que não teríamos soberania numa parte do território porque a Alfândega não poderia abrir as caixas. Mas o que estava em discussão na época era a salvaguarda tecnológica, proteger o sigilo da patente de quem fosse lançar.

O sr. destaca no livro a importância da diplomacia pública. Como é hoje a relação com o Congresso dos EUA?
O caucus (grupo de congressistas voltado a tema específico) sobre o Brasil foi criado quando eu estava lá. Aqui pouca gente tem ideia do poder do Congresso americano, na formulação e na decisão das políticas interna e externa. É na prática um regime parlamentar, porque o presidente e os ministros todos têm que ir ao Congresso seguidamente e não fazem nada sem passar pelo Congresso.

Os assessores parlamentares nessa área externa têm muita força, então eu comecei a fazer o churrasco para eles na embaixada, que continua até hoje. Hoje é diferente, depois do Lula e da Dilma. Como eu procuro mostrar no livro, de 2004 para cá mudou a natureza da posição do Brasil no exterior. Antes era uma dificuldade abrir espaço porque, sobretudo depois do 11 de Setembro, ninguém se preocupava com a América Latina, com o Brasil.

Wednesday, September 14, 2011

tikuna e beneditinos

Monday, September 12, 2011

paulo josé, paulo maluf

da folha online, de ontem


O murro em ponta de faca do teatro de classe média não convence Paulo José



LUCAS NEVES

EDITOR-ASSISTENTE DA ILUSTRADA

"Utile et Dulce". A inscrição em latim, gravada no pórtico do palco que nos anos 1940, em Bagé (RS), deu a Paulo José as boas-vindas ao teatro, viraria talvez a profissão de fé de sua arte.

Útil e agradável, mobilizadora e prazerosa: é nesse intervalo entre as duas (ou seria no contágio recíproco e infinito?) que repousa a visão do ator e diretor de 74 anos sobre o trabalho que lhe coube.

Na espaçosa casa do Alto da Gávea, na zona sul carioca, em que recebe a Folha, ele ensaiou trechos das três peças com que corre o país desde 2009. "Murro em Ponta de Faca" é o reencontro com a crônica do exílio tecida por Augusto Boal (1931-2009) que ele já havia dirigido em 1978. Está em cartaz em São Paulo.

"Histórias de Amor Líquido", que teatraliza a impermanência dos relacionamentos afetivos --na conceituação do polonês Zygmunt Bauman--, aporta por esses dias no festival Porto Alegre em Cena. E "Um Navio no Espaço Ou Ana Cristina Cesar", em turnê, apanha Paulo em dupla jornada: ator e diretor.

Ele ainda defende um papel na novela global "Morde e Assopra" e se prepara para o lançamento, em outubro, de "O Palhaço", longa de Selton Mello em que interpreta Puro Sangue, pai do clown ensimesmado encarnado pelo diretor.

Na entrevista a seguir, cujos destaques estão na edição impressa da Ilustríssima de 11 de setembro, Paulo cutuca a dramaturgia brasileira atual, critica a fixação do cinema por linguagens importadas e fala da doença que o acomete há 18 anos, o mal de Parkinson. Em quase duas horas e meia de conversa, os poucos sintomas visíveis são a perda de fôlego aqui e ali e a lentidão na superação de determinadas sílabas.

Qual é a sua primeira lembrança do teatro?

A primeira lembrança é de quando fui visitar o colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Bagé (RS), para fazer o exame de admissão ao ginásio. Me levaram para ver vários lugares do colégio: a capela, a sala de estudos, o teatro. Esse foi o que mais me encantou. No pórtico da boca de cena, estava escrito "utile et dulce". Útil e agradável. Nos bastidores, havia um monte de roupa pendurada, e me lembro de uma espada de samurai. Nunca tinha visto nada parecido. Era curva. Eu desembainhei a espada. Era uma coisa preciosa, uma arma. Tinha nove anos. Fiquei fã de teatro. Fazia em casa, no fundo do quintal.

Mas seus pais não queriam que você seguisse o ofício profissionalmente...

Isso foi quando [ser ator] entrou "no lugar de", não só como lazer. Faz arquitetura, faz medicina... mas teatro! "É um bando de desocupados, vagabundos, que nem músicos: ficam na grama, deitados, não trabalham, não fazem nada que preste, só 'entertain' a gente" [imitando a reação dos pais]. Passei a ser um "entertainer".

Quando mudou essa visão?

Minha mãe foi colecionando capas de revista: "Manchete", "Cruzeiro"... Até que já não cabiam mais no baú. Aí, eles acharam que eu tinha adquirido uma certa continuidade.

O problema mais grave [na opinião dos pais] é que você não tem emprego fixo. Ser freelancer ou produtor dos seus próprios trabalhos é aflitivo, te dá insegurança. Então, tinha de ter um diploma. Fui estudar arquitetura, que é meio parecido com arte. Chico Buarque fez arquitetura, Vianninha [o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho] fez arquitetura. Não acabaram o curso, mas fizeram parte. Minha amiga Zezé Polessa, por exemplo, fez medicina durante seis anos. Entregou o diploma ao pai e disse "tchau".

Jacó [do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Camões] serviu 14 anos, né?, para ter Raquel. [recita]

"Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: [trecho não recitado pelo ator -- Mais servira, se não fora]
Para tão longo amor tão curta a vida!"

Seis anos, sete na vida da gente não são nada. Quando se chega aos 74 anos... é mais do que se esperava. A gente não tinha se imaginado com 70 anos. [Alguém de] Setenta anos era um velho caquético, caindo aos pedaços. 60, 50, 40, 30, 20. Vinte tá esplêndido. Trinta, mais ou menos. Quarenta, ainda tem vigor físico. Cinquenta já tem cabelo branco, filhos grandes. Com 70, tem netos. Eu tenho dois. Mas até aqui tudo bem, até aqui estamos bem.

Mas o seu lema é de que não se pode planejar nada, já que tudo vai dar errado de qualquer forma. Como isso se concilia com o otimista irremediável que você diz ser?

É assim que as coisas acontecem: quando se fica disponível, não se fecha nenhuma porta, se fica ao ar livre. As coisas passam e te pegam. A vida é isso: é o que se vai fazendo enquanto se idealiza grandes projetos: fazer um grande filme, uma grande peça, escrever um livro. E se vai vivendo. Depois, você começa a colher frutos, a ver que tem uma boa horta. Pegam o meu currículo e ficam impressionados: são páginas e páginas de peças e filmes feitos. Mas costumo dizer que a maior parte é fracasso. A grande vantagem é que fracassos saem logo de cartaz; e são fracassos porque ninguém viu. E o sucesso te cobre um ano, dois de vida, entra na memória de muita gente. Você viaja o país com aquela peça. Então, com três sucessos na vida, você está feito. Já é um grande artista, apesar dos 20 fracassos. [O ator e diretor Antonio] Abujamra costuma dizer: "Eu já tenho 70 fracassos".

Adotar esse discurso não é enveredar numa autoindulgência a priori, numa tentativa de se proteger da perspectiva do fracasso?

Não sei. O Abujamra, quando faz sucesso, diz assim: "Onde será que eu errei?"

Haverá quem diga que montar textos de Augusto Boal (como "Murro em Ponta de Faca", que ele dirige agora), Gianfrancesco Guarnieri ou Oduvaldo Vianna Filho hoje é anacrônico, pois alguns teriam caducado com o fracasso da utopia socialista. Há, na decisão de reencenar "Murro...", um quê de saudosismo --não só político mas também de um certo espírito de teatro de grupo representado pelo Arena dos anos 50 e 60?

Não é saudosismo. Não acho que esses autores estejam ultrapassados. Existe toda uma geração de teatro que sabia escrever. Como os políticos sabiam escrever, vide a carta-testamento de Getúlio [Vargas]. [Carlos] Lacerda, nosso inimigo, sabia falar; podia ficar 24 horas na frente de um microfone na rádio esculhambando os outros políticos. Depois, vem uma fase de teatro da irracionalidade, muito mais corporal, físico do que da palavra. Hoje, se está retomando a palavra. Mas [os dramaturgos contemporâneos] ainda tratam demais da sua realidade, como se fosse muito interessante a realidade de um jovem de classe média. Estão voltados para o próprio umbigo.

Mas tem de haver necessariamente um discurso sociopolítico de fundo para validar o teatro? Não é possível falar de política a partir da visão de mundo de um jovem de classe média?

Não estou falando de política, não. Tô falando de qualidade literária em si. Está em cartaz "Na Selva das Cidades", do [Bertolt] Brecht. Você assiste e fica encantado com a descoberta da palavra. Os personagens, quando se expõem, têm de ter bom texto. Nosso texto é muito reticente, muito coloquial: "E aí, cara, qual é?". É tatibitate, falta fôlego. Você vê que as peças são em geral curtas, têm só dois ou três atores. É difícil você ver em cena o que tivemos nos anos 50 e 60, em montagens como "Pequenos Burgueses", do Górki, "Galileu Galilei", do Brecht, ou "O Rei da Vela" [de Oswald de Andrade].

Insisto: isso não tem a ver com um contexto específico daquela época, de agitação cultural antecedendo uma convulsão política e o surgimento de um movimento de resistência à ditadura? Esse cenário não facilita a criação desse teatro que você busca, mais retumbante? Não estamos em outra época? Seria possível fazer esse teatro hoje?

Não tem dúvida de que é possível, sim. Acho que nós caminhamos para isso, para sair do pequeno gabinete da classe média. A temática da classe média é muito chata, o teatro foi invadido por ela. Não consigo fazer uma peça que agrade muito ao público. Não que seja contra isso, contra a gratificação. Mas você não pode abrir mão de certos valores, de certos princípios seus. A boa escrita é fundamental. Você não pode começar a ler o texto e encontrar vários erros, maus tratos à língua. Isso tem bastante.

Tem uma futilidade temática também... O teatro é feito de grandeza... e pode voltar a tê-la. Agora, o que se está descobrindo aqui são os musicais americanos, né? Existe um público potencial para esse tipo de espetáculo, que se delicia com as criações do [diretor e dramaturgo] Charles Möeller. São espetáculos em que se investe muito, que têm eloquência. É preciso também fazer isso em teatro dramático. Tenho vontade de montar um "Galileu Galilei" ou um "Círculo de Giz Caucasiano" [de Brecht].

Agora, você tem patrocínio, mas é muito pulverizado, migalhas, um pouquinho para cada um. É preciso um investimento pesado. O nosso cinema já tem uma diversidade de temas, de gêneros, de tendências. Acho que está indo bem. No teatro, há muito talento, mas poucos cultores desse talento. Você tem o Antunes Filho, há anos perseguindo uma ideia de teatro. No Rio, tem o Aderbal [Freire-Filho], o Kike [Enrique] Diaz. Pessoas interessadas em discutir teatro.

É um fenômeno que se reproduz na música. A música popular está muito pobrinha. Caetano, Gil, Milton são os nomes que aparecem sempre à frente. Meu Deus, já estão com mais de 60 anos... não houve renovação. Alguma coisa ruim aconteceu aí no meio do caminho. Houve uma ou duas gerações que foram cortadas, capadas, custaram a sair das garagens. Hoje, há um movimento bom começando, mas ainda incipiente. E vive-se a crise das gravadoras, o crescimento da internet. Está um rebuliço, porque não se pagam mais direitos. O que é controvertido, porque uma obra que faz muito sucesso passa a ser pública, cai em domínio público.

Thomas Mann ganhou o Nobel de Literatura. O prêmio era de US$ 1 milhão. Ele não recebeu. Fez uma carta dizendo que "A Montanha Mágica" não pertencia mais a ele. Uma obra que é lida por milhões de pessoas em todo o mundo, em 60, 70 traduções, é de domínio público. São todos donos da obra, cada um constrói a sua montanha mágica. Há uma multiplicação. Ele só detonou aquilo, foi a espoleta. As grandes obras são de domínio público.

Você diz que, quando foi dirigir o Grupo Galpão (em 2003), ficou ressabiado porque sua bibliografia teatral parava no fim dos anos 70. Mas logo viu, em suas próprias palavras, que "não tinha acontecido muita coisa" nesse intervalo. O que dizer então do besteirol da virada dos anos 80, da geração de encenadores (Gerald Thomas, Moacyr Góes, Ulysses Cruz) que se afirma nesse período, da confirmação do pós-dramático (apropriação de formas da dança, da performance e das artes plásticas) como matriz de renovação do teatro?

O besteirol era muito engraçado, divertido. Mas apenas isso. Não sobrou nada. Não dá para erigir um monumento a ele. O Ulysses foi parar na televisão. Tá lá feliz da vida, fazendo "Criança Esperança". O Moacyr Góes foi fazer filmes para o [produtor] Diler [Trindade], com o padre Marcelo Rossi ["Maria, Mãe do Filho de Deus" e "Irmãos de Fé"]. Muito engraçado isso. Não tem nada que tenha ficado mais do que o teatro dos anos 60. Num país como o nosso, existe pouca memória. Vivemos períodos de anestesia. "O Rei da Vela" é de meados dos anos 30. Foi proibido quase que na estreia. Volta a ser montado nos anos 60. Fica 30 anos engavetado. Depois, ele só será reencenado nos anos 90. Ficam buracos. Quem se dedicar a escrever uma história do teatro brasileiro terá grande dificuldade. A Sociedade Brasileira de Autores Teatrais não tem uma biblioteca. Eu mandei para o Serviço Nacional de Teatro mais de 200 textos datilografados, que sumiram.

A minha experiência com gente jovem é às vezes meio assustadora, pela quantidade de coisas que eles ignoram. Até hoje, não veio nada que substituísse um Stanislávski como teorização do teatro, sistematização do conhecimento. Ele dedicou a vida a isso, à observação voltada à criação de um método. Me convidam para fazer palestras. Me surpreendo com as perguntas. Não existe nenhuma agressividade por conta da diferença de idade; seria normal que o jovem fosse iconoclasta. A gente, quando era novo, achava o TBC [Teatro Brasileiro de Comédia] um horror, uma imitação do teatro europeu. A gente polemizava, brigava. Agora, tem um negócio que é chato, constrangedor, que é a admiração. Eu vivo desmistificando os anos 60, o heroísmo, o peito aberto da luta contra o inimigo. Que nada! Éramos uns infelizes. Não tinha outro jeito senão correr da polícia.

Já que você citou a teoria teatral, muito se fala hoje no alemão Hans Thies Lehmann, considerado talvez o grande sistematizador do teatro pós-dramático, essa linha que convoca outras artes para a cena e é praticada por nomes como o Enrique Diaz, que você elogia. É possível mesmo dizer que não há novos caminhos sendo trilhados?

Não tem dúvida de que sim, há novidades. Existem formas muito mais interessantes hoje de encarar o teatro, ligadas à origem dele. Nos anos 50 e 60, ele tinha um contorno definido: era aquilo, e só aquilo. Era o palco italiano [plateia de frente para a boca de cena], o público assistindo no escuro a um drama humano, separado dele pela quarta parede imaginária. Acho muito aborrecido o teatro que busca ser puramente realista.

Tinha montado o "Murro" em 1978. Era um manifesto em favor da anistia. Agora, o exílio passa a ser outro: um isolamento de tudo. Na peça, fala-se de um cara que não tem cidadania, não tem identidade. Hoje, quem é cidadão, com direitos plenos? O povo é maltratado, vive sendo ludibriado. Não há um exercício pleno da cidadania. É uma forma de exílio: você fica alienado de uma sociedade que deveria lhe incluir. Sinto falta de pensadores da vida, que você lê e fica exultante. Nossas leituras de adolescente eram Sartre, Camus. Tinham sustância. Se conhece muito pouco do pensamento contemporâneo, né? Isso é mau para o teatro, porque se reflete pouco no palco.

O teatro se afastou das ciências sociais, da discussão de temas mais profundos, para se aproximar das artes irmãs? Parece que houve uma mudança de foco: saem a sociologia e a filosofia, entram a performance, a dança e as artes visuais?

A sociologia foi uma praga. Passou a ser um balizador do teatro. A sociologia, como profissão, foi desregulamentada. Como emprego, é uma chatice. Muitas coisas acabaram para bem. Por exemplo, tem coisa mais chata do que certos teóricos da semiótica? Era terrível. Porque as pessoas passavam a entender mal, viam aquilo como um instrumento para investigação e análise de alguma coisa. Passavam a tomar aquilo como um fim. A Thérèse Morin, mulher do Edgar, tem trabalhos espantosos sobre o riso. É uma análise semiológica das piadas. No humor, tem sempre um desequilíbrio, uma peça fora do lugar, que causa estranheza. É tão sem graça dissecar uma piada.

Você diz que aprendeu a atuar de modo minimalista, impressionista com o cineasta Joaquim Pedro de Andrade [que o dirigiu em "O Padre e a Moça" e "Macunaíma"]. Hoje, parece haver uma negação desse despojamento. Prioriza-se um certo exibicionismo da parte dos intérpretes, que raspam a cabeça, se submetem a laboratórios duríssimos, perdem e ganham dezenas de quilos para "entrar no personagem"...

Isso se deve ao "star system". O "star" é uma mediação entre o ator e o personagem. Não é nem uma coisa, nem outra. John Wayne, por exemplo, era um "star". Era sempre igual a John Wayne, o "star", não a pessoa. O Wayne pessoa passou 12 anos com câncer e dizia que só trabalhava para se curar do tédio da vida. Mas isso não transparecia no "star", sempre um caubói. A televisão faz muito isso, faz uma mistura terrível entre ator e personagem. As revistas manchetam as situações dos personagens como se fossem dos atores. É tão estranho isso. O ator é um nada. É o que se faz daquele corpo, em torno dele que cria uma mitificação.

No teatro, por mais famoso que seja, o ator, ao entrar em cena, tem estatura humana. Entra sempre inseguro. Sempre há o risco iminente da catástrofe. Você pode esquecer o que tinha para dizer, um objeto pode cair em cima de você. Depois de ver "Vitor ou Vitoria" na Broadway, com a Julie Andrews, saí por uma rua lateral e vi a saída dos artistas. Estava lá ela dando autógrafo e perguntando se tinham gostado. Achei tão curioso. O teatro é muito bom para o ator por conta disso: ou vai, ou racha. Não tem conversa. A TV e o cinema mitificam muito: você aparece aumentado, com uma cara enorme na tela. Fica poderoso.

Você já se referiu às pornochanchadas que dominaram o cinema nacional dos anos 70 como "produções medíocres, com muita mulher pelada, sexo quase explícito, que agradam ao público médio". Vista à distância, essa fase não representou talvez um embrião de indústria cinematográfica, uma aposta em títulos de forte apelo popular para fidelizar a audiência _algo que o cinema brasileiro ainda não conquistou completamente?

A qualidade nasce da quantidade, não tem dúvida. Para que isso aconteça, é preciso que haja uma indústria. O que não me impede de achar os filmes [dessa fase] muito vagabundos. O ponto de partida já é ruim. Supõe-se que o povo queira ver determinadas coisas. O que define o cinema é ser autoral, como música, literatura. Só fiz filmes de autor. O resultado varia, mas se vai sempre com a melhor das intenções. Não se vai já vendido. Nunca fiz filme comercial, não sei o que é isso. Filme de massa. Ser popular não é defeito. É desejável, mas sem abrir mão de certos valores artísticos. O período das chanchadas da Atlântida era maravilhoso. Eram artistas populares, né?. Iam ao encontro do que o povo queria. Era fã, ia na primeira sessão. A TV matou. Era um cinema musical, as músicas do Carnaval eram lançadas no cinema, em novembro, dezembro do ano anterior. Aí, [os artistas] começaram a aparecer na televisão. Você via a cara do Ivon Curi, das irmãs Batista, da Marlene.

Você disse certa vez concordar com quem torce o nariz para a produção cinematográfica brasileira atual. Depois de listar exceções, observou que "em geral, não é para ir mesmo [ver títulos nacionais]". O que falta aos filmes brasileiros?

As pessoas estão viciadas em uma certa linguagem de cinema americano. O [consultor] Syd Field é o mestre do roteiro, do "como fazer um filme igual a muitos outros que você já assistiu". Tem o primeiro ponto de virada aos 17 minutos, o outro aos 43. É tudo medido, é impressionante. Isso já criou um padrão, um hábito. Quando um filme não cabe nessa fôrma, as pessoas ficam muito perturbadas, não conseguem entrar nele. O que tem menos redundância é hermético. Se o receptor não entende, a culpa é sua. Mas se você tem alguma autoridade, o cara que está vendo é que é burro por não entender.

A gente está preso a um timing, a um cinema todo cortado. Se você compara com o cinema iraniano... um cara pega um carro para ir de um ponto a outro, e você segue todo o percurso, em tempo real. Aí falam: "Que coisa chata o cinema iraniano". Não acho. É só ter outro approach, não esperar esse dirigismo dado pela edição. Dizer que os filmes do cinema novo não eram populares é uma inverdade. "Deus e o Diabo na Terra do Sol" é um filme popular. Não há quem não entenda aquilo: é uma fábula primária, simples. Agora, é uma linguagem à qual não se está acostumado.

Acontece também que, nos anos 60, a semelhança entre o que acontece na tela e a vida do espectador era desagradável. [Muita gente fala] "Eu quero um cinema de evasão, com pessoas bonitas, bem vestidas, cenários maravilhosos." "Deus e o Diabo..." só tem gente pobre, fodida. Essa identificação é desagradável. Americano tem isso, né? O filme do [Hector] Babenco, "Ironweed" (1987), foi execrado porque pega os Estados Unido da recessão. Se você pisa muito em miséria, más condições de vida, o americano odeia. Odeia se ver. Aqui, recebemos esse cinema americano de forma colonizada.

Tem vontade de dirigir para cinema?

Não o suficiente para eu pegar R$ 4 milhões, R$ 5 milhões para um projeto meu. Parece que ninguém precisa ver filme brasileiro. Você fica procurando mercado, tentando impingir aquele filme que você fez. As pessoas ficam te olhando de soslaio. Sofri muito com isso. Nos anos 60, com "Macunaíma", eu e o Joaquim [diretor] visitamos vários exibidores para botar o filme no cinema. Acabava a sessão, acendia-se a luz, ficava aquele silêncio. O Joaquim perguntava: "E aí, o que vocês acham?" E ouvíamos: "Filme brasileiro, sabe como é, né? É difícil, é difícil." O exibidor não tem um trunfo na manga, está dependendo do cinema americano. Não tem data. Teria de ser um filme de pegada, que animasse o cara. E tem também a questão da crítica. Você é o primeiro a escrever sobre aquele produto. O cinema estrangeiro já vem com um pacote de informações, com resenhas da "Variety"... você senta na redação para fazer a sua crítica já sabendo daquilo. No cinema brasileiro, você tem de descobrir valores ou não, fica mais inseguro.

E há uma visão paternalista da crítica em relação ao cinema brasileiro?

Sim, há um pouco. Há jornalistas que torcem pelo cinema brasileiro, que fazem perfis de diretores, atores, roteiristas, vão a todos os festivais, estão nas pré-estreias. Têm tanta intimidade conosco que fica difícil fazerem críticas distanciadas. O cara vira um aficionado, um militante.

Você falou há pouco sobre patrocínio. Qual a sua visão sobre a Lei Rouanet, o principal mecanismo de financiamento à cultura no país, e sobre o debate atual em torno da necessidade de repensá-la?

Se confunde o uso com o abuso. É que se abriu uma brecha para você ganhar seu dinheiro na captação. Se você tiver um projeto de R$ 5 milhões e prever um pagamento de 10% para você, já são R$ 500 mil. E é um campo aberto para o oportunismo, porque há lobistas, pessoas que trabalham com a contabilidade de grandes empresas que sabem com antecedência qual vai ser o lucro daquele ano e fazem a intermediação com o agente cultural. Cobram 10%, 20% por isso.

Mas não dá para condenar o uso por conta do abuso. Há distorções pelo fato de, no cinema, por exemplo, a lei priorizar a produção, esquecendo-se da outra ponta, a da distribuição, a da chegada ao mercado. É preciso discutir maneiras de beneficiar o cinema brasileiro na ponta da exibição, com isenção de impostos. Há muito desamparo aí. O cara não precisa fazer bilheteria, então não precisa nem que o filme seja exibido. "Já ganhei o meu, então agora quero fazer outro projeto para ganhar mais dinheiro." Mas não significa que sejam todos uns ladrões. O governo vê com desconfiança: acha que, por princípio, queremos pegar dinheiro, mamar nas tetas do governo.

Como você avalia a gestão de Ana de Holanda à frente do Ministério da Cultura?

Não saberia te dizer, talvez por estar um pouco fora da política. Mas o primeiro ano de governo [de] é botar a casa em ordem. Ela não quer fazer uma política continuísta. Então, leva um ano de reorganização, para ouvir as pessoas. Não sei ainda qual é a política cultural do governo. O PT nos vê um pouco como burgueses, né?, que querem viver bem, com fartura. Não somos preferenciais.

A Ana tenta mudar essa visão de luta de classes?

Ah, sim, é claro.

Muita gente diz que ela assumiu sem conhecer a pauta do MinC...

O PT achava que a Dilma seria pau mandado do Lula. E ela tem muita personalidade. Tanto que agora há um certo afastamento. A lista de escândalos é uma coisa incrível. Não se imagina que as pessoas traiam tanto suas convicções por causa de grana. Com o PT aconteceu uma espécie de assalto ao governo. "Vamos nos locupletar, agora chegou nossa vez de tirar a barriga da miséria." Botar dinheiro na cueca... porra!

O governo da Dilma tem uma cara diferente, tem outros aliados. Então, o MinC procurou pegar caras novas. A Ana de Hollanda foi uma pressão interna lá do pessoal do [Antonio] Grassi [atual presidente da Funarte]. O Grassi tinha caído em desgraça, mas foi reabilitado. E aí desgraçou o ex-ministro Juca Ferreira, que, independentemente do que estivesse fazendo no ministério, seguia uma ideia de mudança, de parar para repensar. Havia reclamação de que ele era muito autoritário, de que não ouvia ninguém nas reuniões que fazia com a classe. Dava o parecer dele, independentemente da ressonância que pudessem ter outros pensamentos.

E você votou no PT nas últimas eleições?

Não me lembro. Não, não votei em ninguém. Tenho mais de 70 anos.

No Lula, você votou? Em 2002 ou 2006?

Votei, votei. O Lula é um homem interessante, que reúne os defeitos da América Latina e suas qualidades também, de continente novo, emergente. Ao mesmo tempo, tem ligações com a Venezuela, espúrias. Tem uma coisa que é sempre simpática para nós, que é [a ligação com] o velho comandante, el comandante Fidel Castro, el viejo maestro.

Falando agora um pouco sobre o Parkinson. Que adaptações são necessárias na escolha dos personagens que vai encarnar e em sua movimentação de cena por causa da doença?

Eu estou bem melhor agora do que há três, quatro anos. Porque fiz uma cirurgia de instalação de uma espécie de marca-passo cerebral, que é pouco conhecida no Brasil, por ser cara. É considerada experimental. O seguro nem paga a cirurgia. Tive a sorte de a Globo bancar uma boa parte. Não paguei nada. Custa uns R$ 200 mil. A frequência elétrica emitida pelo dispositivo inibe os movimentos involuntários, acaba com os tremores e com a rigidez muscular.

Muitas pessoas com Parkinson são maltratadas, pouco assistidas. A medicação é cara. O governo tem obrigação de dar de graça. Mas há obstáculos. Às vezes, você vai ao posto de saúde e não tem o remédio. E na farmácia, custa R$ 600, R$ 700 um vidrinho. [Com a operação] Diminuí a medicação, os efeitos colaterais. A medicação forte faz com que comecem a aparecer uns efeitos colaterais que você queria evitar. Você fica mais parkisoniano do que era. Tem um efeito sensacional. É claro que não posso fazer o papel de um corredor, de um fundista. Mas a idade de qualquer forma não me permitiria isso. Mas papéis que demandem pouco exercício, movimento dá para fazer bem.

Para a doença, o fato de eu estar em cena é ótimo. O ator quase não tem Parkinson. O personagem é mais forte do que o ator. Tem uma concentração de energia que te coloca em cena direito. O que te deixa inseguro é ter texto novo, ter de criar texto. Se você já tem, pelo menos em linhas gerais, a condução do personagem, está só repetindo: já viu, já andou ali. É fácil, fica fácil.

Em cena, você recorre a apoios, fica mais tempo sentado?

Agora, tenho de ficar sentado, porque me canso muito ficando de pé. E é preferível, sim, ter apoio para o braço [mostra o corrimão de ferro que mandou instalar na lateral do tablado de madeira doméstico em que ensaia suas peças].

Como é lidar com a reação das pessoas ao Parkinson? Algumas, no afã de agradar, devem ser tomadas por um zelo excessivo, vitimizante, não?

Tem um negócio que é irritante: ser tratado como criança pelas enfermeiras do hospital. "Chegou a sopinha, vovô vai tomar a sopinha dele agora!". Porra, caralho, que sopinha o quê! Tem muito isso.

Você chega a se irritar?

Algumas pessoas dizem assim: "Nossas estimas de melhoras, viu?" Que melhoras, porra, eu tenho uma doença degenerativa! E nas lojas, com aqueles detectores de metal na porta, tenho de pedir para desligarem o aparelho antes de entrar, porque senão pode desconectar meu marca-passo. Às vezes, a negociação demora. Teve um cara que veio me atender, enquanto desligavam o detector, e disse: "Nossa, mas que doença terrível o senhor tem! Que barbaridade! Tenho uma pena do senhor. Eu me matava, não aguentava ficar assim".

E quando foi que a doença mais atrapalhou o exercício da profissão?

Eu fazia muita locução. Comecei a ir a estúdios para gravar anúncios, documentários. E tinha dificuldade. Muitas vezes, passei o constrangimento de o diretor dizer: "Vamos deixar para outra vez, não está dando certo". Ficava encabuladíssimo. Sou mais lento, né? Vou trabalhando palavra por palavra. Aí fiz o seguinte: montei um estúdio em casa. Porque aí, se não estou bem, não faço nada naquele dia, ou faço bem devagar. A doença tem muitas variações, altos e baixos. E também não fico angustiado de estar usando o estúdio de outro, né? Isso dá uma aflição, é horrível. Fiz o [filme] "Quincas Berro d'Água". O Sergio Machado [diretor] queria que eu fizesse, mas sabia que estava doente. Minha mulher [Kika Lopes], que era a figurinista, disse que eu estava bem. "Como assim, está bem?", respondeu o Sergio. Aí ele veio falar comigo. Corre a notícia no meio de que você não pode fazer nada, está acabado. Com "O Palhaço", foi a mesma coisa. A Vânia [Cattani, produtora] ficou dando volta, estava reticente.

Você acompanha os estudos relacionados ao mal de Parkinson, os testes de tratamentos alternativos?

Sim. Estão aparecendo muitas coisas novas. No ano que vem, deve haver novidades. São medicações que te deixam quase normal. Ninguém se preocupa com a cura do Parkinson. Os laboratórios querem manter você um doente legal, mas pagando sempre, dependente deles. Há grandes avanços. Até algumas décadas atrás, a expectativa de vida [geral, no mundo] era muito mais baixa, então havia menos casos de Parkinson. Hoje, há casos de pessoas com 80, 90 anos e que têm a doença. Tem muito milionário americano que faz doações para laboratórios. É toda uma rede armada da qual você não pode escapar.

As pesquisas com células-tronco, visando à cura efetiva do Parkinson, estão muito atrasadas. O Bill Clinton [quando presidente dos EUA] tinha feito um projeto especial para desenvolver pesquisas sobre a doença. Mas logo entrou o Bush e reverteu tudo. O dinheiro acabou. Doença era problema dos laboratórios, o governo não tinha se de meter com isso.


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Dr. Paulo em ritmo de aventura



PAULO WERNECK
EDITOR DA ILUSTRÍSSIMA

O chrysler desliza macio pela avenida Tiradentes, sobe lépido pela alça de um viaduto e ganha a Marginal do Tietê. "Esta Marginal eu fiz, esta ponte eu fiz, esta adutora, a Guaraú-Mooca, eu fiz" -a voz no banco de trás é indefectível. A viagem até São José dos Campos vai durar poucos mais de uma hora, e enquanto dá a entrevista à Folha, Paulo Salim Maluf, 80 anos completados e comemorados ontem, na Sala São Paulo, narra em primeira pessoa a paisagem que se vê pela janela do carrão.

O deputado federal dedicou a manhã ensolarada de sábado para um evento político: a filiação do vereador Alexandre da Farmácia ao Partido Progressista. Alexandre é sua aposta para a corrida eleitoral do ano que vem na maior cidade do Vale do Paraíba. O partido está sendo "reestruturado" no interior, informa Jesse Ribeiro, seu assessor há décadas, e Maluf tem percorrido o interior para o "corpo a corpo" com correligionários.

TEMPO MÍTICO

Paulo Maluf traz uma dupla sensação de atualidade e anacronismo, de que há na política um tempo mítico, que retorna sempre ao mesmo ponto. E não apenas no Brasil: Moscou teve como prefeito o "Maluf russo" Iúri Luzhkov, que governou por duas décadas até o ano passado e planejou pontes submersas; Nova York teve o "Maluf americano", Fiorello LaGuardia, entre 1934 e 1945.

Maluf não tem efetivo peso político nem aliados visíveis no primeiro plano do poder, impedido de sair do país (é procurado pela Interpol); seu mandato lhe dá a segurança do foro privilegiado no Brasil, mas ele está ausente das grandes discussões do país. Mas ele parecia mais atual do que nunca na manhã de 6 de agosto, ao ler sobre a morte de seis homens que estariam se preparando para explodir caixas eletrônicos em Parada de Taipas, na zona norte.

Na versão da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), "tropa de elite" paulista, os PMs agiram cumprindo seu dever, durante um tiroteio. Os seis foram abatidos no dia 5, com tiros na cabeça, indício de execução sumária. Semanas depois, surgiu a hipótese de a Rota ter preparado uma emboscada.

"Com a Rota ninguém brinca", diz ele, brandindo a edição da Folha que mostrava um PM a observar os cadáveres que jaziam dentro de um carro. "Veja os jornais de hoje. A Rota veio e acabou com a brincadeira. Os direitos humanos, quando um bandido é assassinado, culpam a sociedade que não deu ao bandido condições de ele se educar, não deu emprego. Mas nunca esses tais direitos humanos foram ver se a família do soldado estava amparada, se a viúva tinha como educar os filhos, sabe?"

E se os policiais tiverem mesmo virado para a parede as câmeras de segurança do supermercado onde o crime ia acontecer, conforme a versão que já circulava naquele dia? "A mídia quer vender jornal. Então a mídia procura esse detalhe: virou a câmera. Eles foram ou não foram explodir os caixas eletrônicos? Quer dizer, o culpado é quem virou a câmera? O culpado é o mordomo?", diz Maluf, mais atual do que nunca.

LUA DE MEL

Até chegar a São José, Maluf vai narrar com precisão o seu percurso de 15 mil quilômetros de carro durante a lua de mel com Sylvia, em 1955 -cinco meses que começaram numa tourada em Madri ("Saí de lá escandalizado e ferido pela brutalidade do espetáculo, e aí fui para o hotel Ritz"). "Na verdade, a lua de mel foi um roteiro de visitas a fábricas." Os nubentes visitaram linhas de produção na Inglaterra, na França, na Alemanha, na Suécia, na Áustria, na Itália, para aprender tecnologia para as empresas da família.

Na Câmara de Vereadores de São José, foi recebido com festa pelos correligionários da região e por um Alexandre da Farmácia visivelmente emocionado. No palanque, Maluf comentou a crise mundial: "A gente olha para a crise da Grécia, da Itália, e o que sobra? As obras. O Coliseu, a Acrópole". E repete o que parece ser seu novo bordão: "As pessoas veem os tropeços que eu dei, mas não conhecem as cachaças que eu tomei".

FESTA

O clima de festa se repetiria dias depois, no voo que Maluf chama de "a esperança dos suplentes" -não são poucos os parlamentares que decolam de Congonhas rumo a Brasília nas manhãs de terça, início da semana parlamentar. Num saguão de aeroporto lotado, ele sai distribuindo "obregados" a esmo e é alvo de curiosidade, pedidos para posar para fotos e imitações por parte de passageiros e da tripulação do avião. Nenhuma hostilidade. Maluf parece pertencer ao campo da estética, não mais da política. Prova disso é seu gosto em aparecer no "CQC", programa satírico da TV Bandeirantes.

No avião, puxa um exemplar da revista "The Economist" que mantém constantemente debaixo do braço e usa para ilustrar suas teses. É visível seu empenho em se mostrar a par da pauta política do país, sempre apresentando-se como um precursor das questões contemporâneas.

"Na minha vida particular eu plantei não 1 milhão de árvores, nem 2 milhões, nem 3 milhões, nem 10 milhões. Eu plantei 100 milhões de árvores no Estado de São Paulo, nas propriedades da minha empresa, a Eucatex, o nome vem de eucalipto. Eu contribuí contra o aquecimento global mais do que todos os conservacionistas".

Sobre a Parada Gay de São Paulo e os direitos dos homossexuais, é lacônico: "Eu não participaria. Eu gosto é de mulher".

Sobre a campanha de Fernando Henrique Cardoso pela descriminalização da maconha: "Sou contra". Já fumou maconha? "Não." Já lhe ofereceram? "Já." O que respondeu? "Não digo, mas tem a ver com a irmã e a mãe de quem me ofereceu."

Sobre a primavera árabe: "Meu pai veio para o Brasil numa revolta árabe, em 1910, na luta pela democracia contra o império Turco-Otomano".

Tem intenção de concorrer à Prefeitura de São Paulo? Ele faz mistério, embora pareça claro que não tem musculatura política para chegar ao segundo turno. Faz, no entanto, uma análise odontológica sobre sua adversária dileta, Marta Suplicy, que naqueles dias tentava emplacar sua candidatura pelo PT: "A Marta é candidata. Quando ela me cumprimentou, dava para ver os 28 dentes dela".

Se é verdade que Maluf conseguiu implantar medidas progressistas em sua gestão na prefeitura, como o cinto de segurança, ele foi a São José sem o cinto no banco traseiro. Disse desconhecer a lei que o obriga a usá-lo. E deu soquinhos no banco dianteiro do Chrysler, mostrando estar protegido.

Maluf é um amante do automobilismo, sendo frequentes as suas idas a Interlagos com os netos, para dar umas voltas de Porsche no autódromo. "Dou um pau na gurizada, mas não abuso. Em Interlagos a pista fica abaixo de dois minutos, mas eu faço em dois minutos e 15, não abuso. Só dou cinco ou seis voltas porque cada jogo de pneus desses Porsches envenenados custam R$ 7.500. Economizo o breque e o pneu."

PIRATARIA

Outro tema contemporâneo, a pirataria e os direitos autorais, vem à baila quando Maluf me entrega um CD em cuja capa ele próprio aparece de fraque.

Trata-se do "Concerto para Seis Pianos e Orquestra" de Hexameron, tocado pela Orquestra Sinfônica Brasileira em Campos do Jordão, em 1979. Os seis solistas foram Antonio Guedes Barbosa, Arthur Moreira Lima, Jacque s Klein, João Carlos Martins, Nelson Freire -e Paulo Salim Maluf. "Quantos prefeitos, governadores, presidentes da República tocaram com Nelson Freire?", pergunta, orgulhoso.

"Pianista é muito vaidoso, não gosta de tocar na companhia de outros pianistas", diz. "Só tocaram comigo porque eu era governador." Gaba-se de sua performance: "Fui o único a tocar sem partitura", diz. "Estudei durante seis meses. Fui perfeito." A renda do LP foi doada "às crianças do Vale do Ribeira".

Anos depois, Maluf mandou prensar centenas de CDs com a gravação, para distribuir a seus contatos. "Esse CD custou R$ 2 porque mandei fazer na minha produtora", explica. "Se fosse comprar numa loja, custaria R$ 15. Por quê? Quem é o pirata?"

Talvez porque na loja sejam cobrados impostos e direitos autorais? "Eu defendo o consumidor final", diz. Então alguém poderá quebrar patentes da Eucatex e fabricar seus produtos sem pagar royalties? "Se for capaz de produzir, pode. Meu lema é: quem pode, pode, quem não pode, se sacode."

Numa parede de seu apartamento funcional em Brasília, há a reprodução da capa de uma revista que o mostra em sua primeira comunhão, com o título "O menino que virou Maluf".

Depois do almoço e antes da visita do ministro Guido Mantega ao Congresso, ele assiste, no "Jornal Hoje", à prisão de funcionários do Ministério do Turismo pela Polícia Federal.

"Isso vai pegar a Marta", vibrava, referindo-se à sua adversária.

Em sua boca, eram bem visíveis seus 28 dentes.

Sunday, June 19, 2011

entrevista do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho na folha online

Há risco de desconstruir mitos, personalidades e patronos com a divulgação de documentos hoje mantidos sob sigilo? Ou esses mitos já foram todos desconstruídos?

Se há riscos, é mais uma razão para abrir os arquivos. Mitos têm que ser destruídos em nome da maturidade democrática. Renan dizia que nações se criam à base de esquecimento, ocultação e mesmo mentira histórica. Mas hoje não se trata mais de construir a nação. Ela já existe. E para mantê-la, hoje, é necessário construir a sociedade democrática. Isso inclui o direito de informação sobre a própria história. A política do sigilo, do segredo, da ocultação, inviabiliza uma escrita confiável dessa história. Perde o historiador, perde o cidadão, perde o país.

Sunday, January 16, 2011

JANIO DE FREITAS Muito natural

16/01/2011

ÀS VEZES, ACONTECE. A natureza desaba fora do lugar e estende os seus desastres a vales e colinas onde as condições prometiam tudo o que atrai as boas construções desejadas pelo poder aquisitivo. Quando acontece assim, a natureza contraria também o consenso que modelou, com o barro de cinco séculos, o nosso jeito brasileiro.
É a esse consenso, muito mais do que à natureza e ao acaso, que se deve a persistência dos desastres nas áreas de moradias frágeis, sobre terras sempre prontas a escorrer sob o chão batido e a encobrir os tetos e as vidas igualmente improvisados. É ao consenso, e não à mera "irresponsabilidade das ocupações permitidas de áreas de risco", que se deve o encontro fácil e consentido entre as moradias pobres e a desgraça de desastres.
É certo que prevenir as calamidades da pobreza não dá voto. Mas há lógica em não o fazer. O governante que consente na ocupação de áreas de risco não teria por que voltar-se, em seguida, para a prevenção dos desastres previstos no risco. Seus motivos para o descaso são os mesmos que o poupam de interessar-se por esgotos e saneamento geral das áreas pobres, água tratada, auxílio à saúde, e outras sobras das zonas urbanas de boas classes.
O descaso com o modo de vida da pobreza é parte da nossa história de povo e de país. Os aglomerados de moradias por "ocupação de áreas de risco", e também os de menores ou outros riscos, são continuadores dos aglomerados de ex-escravos. A libertação não significou o fim da visão racista, não incluiu o reconhecimento reparador da pobreza como dever do Estado, não incutiu sentido humano na aventura a que o ex-escravo seria entregue pela libertação. Já era, então, o descaso de hoje.
Um dos parágrafos duvidosos da historiografia atribui o surgimento do nome "favela" -palavra graciosa de injusto destino- ao aglomerado de barracos, no Rio, dos soldados vindos de Canudos e largados ao relento pelo Exército. Favela, como era chamada (se era) uma fava comum (se havia) na região da guerra. A favela criada no morro da Providência, onde, faz pouco, um tenente do Exército e sua patrulha prenderam três rapazes, vindos de uma festa. Os três cadáveres foram encontrados em um vazadouro de lixo longe do morro. Muito próprio da Providência e dos personagens.
O descaso com a ocupação de áreas de risco, favelas ou lá que denominação se dê, hoje pode ser explicado pelo baixo lucro eleitoral de medidas preventivas e saneadoras. Se a explicação é atual, o descaso é mais que secular. Aceito como parte da vida brasileira, sem reação alguma, jamais. Não houve catástrofe que mudasse a aceitação, sempre fortalecida pelos sentimentos de classe.
Está claro que não se estranhou, por exemplo, a reivindicação brasileira de fazer a Copa e a Olimpíada, ao custo de dezenas ainda incalculáveis de bilhões.

SINAIS
Nenhuma demagogia, muita objetividade, decisões adequadas, uma entrevista coletiva sucinta e suficiente: a estreia de Dilma Rousseff, em sua ida a áreas da catástrofe no Rio de Janeiro, foi muito promissora. Trouxe o que se pode desejar de uma Presidência em tais circunstâncias.
A primeira reunião ministerial, ao que dali passou para cá, seguiu os modos da viagem ao Rio. Os primeiros sinais são de algo novo.

Sunday, December 19, 2010

internet

Cerco a Assange deixa jornalismo vulnerável, afirma especialista

Escritor americano Glenn Greenwald diz que há risco de mais processos contra jornalistas

Colunista do Salon.com, ele diz que o WikiLeaks não pode ser processado porque não pertence a nenhum país específico

JANAINA LAGE
DO RIO

O escritor e advogado constitucionalista norte-americano Glenn Greenwald afirma que, caso os EUA consigam processar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, jornalistas ficarão mais vulneráveis a ações judiciais.
Colunista da revista digital Salon.com, Greenwald tem sido uma das vozes de defesa do WikiLeaks na imprensa americana.
Para ele, não há base legal para processar o site porque é uma organização dissociada de qualquer Estado e só existe na internet.
Jornais norte-americanos já citaram como possíveis bases legais para um processo contra Assange a lei de espionagem, de 1917, e a lei de fraude e abuso de computadores, de 1986.
O escritor concedeu entrevista à Folha após palestra no Iesp-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos).
Greenwald vive no Rio de Janeiro há quase seis anos. A seguir, trechos da entrevista.


Folha - O que os documentos vazados pelo WikiLeaks revelam sobre a diplomacia americana?
Glenn Greenwald - Não existe uma diplomacia americana à parte dos demais objetivos do governo. Os diplomatas são usados para espionar outros países e para levantar dados de inteligência da mesma forma que a CIA seria usada.
O papel da diplomacia é evitar guerras, mas muitos documentos mostram tudo menos isso. Há diplomatas tentando convencer outros países a deixar que os EUA participem de ações militares em seus territórios.

Na semana passada, a Força Aérea dos EUA bloqueou o acesso às páginas de veículos que publicam vazamentos. A polêmica em torno do WikiLeaks pode trazer de volta a discussão sobre censura na internet?
Isso vai justificar na cabeça de muita gente que seja criado algum tipo de repressão ou censura na internet, o que é um retrocesso. As pesquisas com o público americano mostram que a maioria acredita que o WikiLeaks causou mais danos do que benefícios e que Assange deve ser encarcerado.
Os governos sempre querem controlar a internet. A razão pela qual não podem fazer isso é a oposição pública. O compromisso do WikiLeaks com a transparência pode aumentar o apoio público ao controle da internet.

Como o sr. compara os governos de Barack Obama e George W. Bush em relação à liberdade de imprensa?
Quando Obama concorreu à Presidência, criticava Bush por sua guerra contra a transparência. A realidade é que não só ele continuou a maioria destas políticas como, em alguns casos, elas até pioraram.
O governo Bush ameaçou mover ações contra jornalistas que publicaram informações secretas e processar pessoas do governo responsáveis pelos vazamentos, mas quase nunca fez isso. O governo Obama já trouxe cinco diferentes ações contra pessoas do governo que vazaram informações.

O sr. citou um artigo do professor Jay Rosen, da New York University, que afirma que parte da repercussão do WikiLeaks é resultado da morte do jornalismo americano...
Depois do 11 de Setembro, a grande imprensa se tornou completamente identificada com o governo.
Eles cobriram a Guerra do Iraque embarcados com o Exército e começaram a ver o mundo pela perspectiva do governo.
A maior desgraça é que nosso governo levou o país a uma das mais terríveis guerras dos últimos cem anos baseado integralmente em mentiras, e a classe jornalística não se deu ao trabalho de submeter as informações a qualquer escrutínio.


Quais as consequências de um eventual processo dos EUA contra Assange?
Isso vai tornar os processos contra jornalistas muito mais prováveis. Se você criar uma teoria legal que permita um processo contra o WikiLeaks, isso dará poder ao governo de processar jornalistas por revelar seus segredos.
Revelar segredos de governo representa o corpo e também a alma do jornalismo investigativo.

Por que o sr. afirma que o WikiLeaks não está sujeito às leis americanas?
O WikiLeaks não é brasileiro ou americano. É uma organização sem Estado, não pertence a nenhum país e não existe fisicamente em lugar algum, apenas na internet. Não há mecanismo para definir qual lei se aplica a ele. Não se pode levá-lo à Justiça e obrigá-lo a revelar suas fontes. A maioria das pessoas não consegue pensar dissociada do Estado.
Parte do caráter único do WikiLeaks vem do fato de Assange ter sido criado de forma transnacional.
Ele se mudou centenas de vezes e foi criado de forma a não confiar ou seguir nenhuma autoridade.

Por que a "Time" elegeu Mark Zuckerberg personalidade do ano quando os leitores escolheram Assange?
Muitas pessoas usam o Facebook e Mark Zuckerberg ganha muito dinheiro com isso, mas se ele não existisse, nada iria mudar. A "Time" já elegeu Adolf Hitler e Joseph Stalin como personalidades.
Quando as pessoas perguntam zangadas: "Mas como vocês fizeram isso"? Eles sempre dizem que não é a opção de que gostamos, mas a que teve maior impacto.
Em 2001 a pessoa de maior impacto foi Osama bin Laden, mas eles tiveram muito medo e escolheram Rudolph Giuliani [ex-prefeito de Nova York]. Agora, é claro que Assange tem mais impacto do que Zuckerberg.

do guardian:
Yahoo [not?] closing down Delicious; but why won't Carol use the F-word?
e
The Anonymous WikiLeaks protests are a mass demo against control