Sunday, September 19, 2010

os prazeres da leviandade

1.
da folha, sábado, uma entrevista de laurentino gomes:


O mercado editorial no Brasil ainda é muito amador?

Sim, por não conseguir criar fórmulas para ampliar o público leitor. É preciso fazer livros com linguagem mais acessível! É um erro dizer que o problema da falta de leitura no Brasil é apenas devido à falta de renda e escolaridade. A formação de leitores começa por "Harry Potter" [de J.K. Rowling] e "Crepúsculo" [de Stephenie Meyer], não pela literatura "nobre".

(comentário: começa com harry potter e crepúsculo quando se quer. nunca é demais lembrar a experiência francesa - de bazin, se a memória não engana - em que grandes filmes - ladrões de bicicleta, por exemplo - eram exibidos para crianças, com absoluto sucesso. de resto, a ideia de que a leitura - ou o desenvolvimento de qualquer sensibilidade - deve começar no medíocre é tão mentirosa quanto a de que um vício leva a outro - fosse verdade, os fumantes seriam infalivelmente usuários de crack e todos os ouvintes de, digamos, britney spears acabariam exultantes ouvindo beethoven.)

2.
entrevista de josé padilha reúne um grande conjunto de obviedades sobre política, cinema e representação, e, convictamente, defende o personalismo (por conseguinte o heroísmo pessoal), que, travestido de cordialismo, ajuda a minar de dentro as instituições no brasil.
e é preciso que alguém avise a esse senhor que ele não faz nem nunca fez um filme político.

3.
essa, também na folha do último sábado, merece a íntegra:

OAB pede para Bienal de SP retirar obra polêmica

Série "Inimigos" retrata artista atentando contra a vida de figuras públicas


Ordem dos Advogados ameaça processar instituição caso quadros de Gil Vicente sejam mantidos

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo divulgou ontem nota pública pedindo para que os trabalhos do artista pernambucano Gil Vicente sejam excluídos da Bienal de São Paulo, que abre no próximo dia 25.
Os dez desenhos da série "Inimigos" retratam o próprio artista atentando contra a vida de figuras públicas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o papa Bento 16 e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, aparecem sob a mira de uma pistola. O presidente Lula, por sua vez, com uma faca na garganta.
"Essas obras fazem apologia à violência e ao crime, revelam o desprezo do autor pelas figuras humanas e demonstram um desrespeito contra as instituições públicas", diz o presidente da OAB/SP, Luiz Flávio Borges D'Urso. "Se elas não forem retiradas, a curadoria da Bienal corre o risco de estar cometendo crime."

RISCO DE PROCESSO
Segundo D'Urso, o pedido ainda não é judicial. Mas, caso a curadoria da Bienal decida manter as obras, a OAB deve encaminhar solicitação de abertura de processo pelo Ministério Público.
Agnaldo Farias, um dos curadores desta edição da mostra, diz que as obras não serão retiradas. Segundo ele, a OAB-SP está incentivando um ato de censura.
"Esse trabalho é uma ficção, ela vem do imaginário. Na dramaturgia, também há inúmeros casos de representação de atentados contra instituições públicas. A OAB de São Paulo vai pedir para que esses autores não sejam mais exibidos também?", questiona Farias.

OPINIÃO TACANHA
"A representação artística deve ter limites. Se as figuras retratadas não fossem reconhecíveis, aí sim poderíamos tratá-las na esfera da ficção", rebate D'Urso.
O criminalista Alberto Zacharias Toron considera "tacanha" a opinião do presidente da OAB. "Falar em incitação ao crime é de uma grande incompreensão sobre o papel da arte", argumenta o advogado, doutor em direito penal pela USP, ex-diretor do conselho federal da própria OAB.
Segundo Toron, a liberdade de expressão do artista é garantida pela constituição do país.
Segundo o autor das obras, que tem 2 m por 1,5 m e são feitas com carvão, elas não foram pensadas para incitar a violência.
"Eu não mataria ninguém, nem quero que outras pessoas façam isso. A violência que eu retrato parte do próprio mundo político contra um país inteiro", explica Vicente.
O trabalho, reitera o artista, fala diretamente sobre uma insatisfação. "Nada muda na mão de políticos. O país continua cheio de miseráveis. A morte que eu apoio dessas pessoas é simbólica."
Gil Vicente diz que não comparece às urnas desde que iniciou a criação da série "Inimigos", em 2005. "Eu tenho consciência de que ter esperança nessas figuras é bobagem. Não vou mais cair nessa", afirma.

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